O que é um endometrioma?
A endometriose é uma doença em que tecido semelhante ao endométrio (o revestimento interno do útero) cresce fora dele. Quando esse tecido se instala no ovário e forma um quisto, chamamos-lhe endometrioma. É frequentemente conhecido pelo termo popular quisto de chocolate, porque o seu conteúdo — sangue antigo — tem precisamente essa cor e textura.
Os endometriomas afetam uma parte significativa das mulheres em idade reprodutiva:
O dilema: a cirurgia tem um custo
O tratamento clássico do endometrioma é a cistectomia laparoscópica — uma cirurgia em que o quisto é removido. É uma operação eficaz e está há décadas indicada nas guidelines internacionais. Mas tem um preço:
- ao retirar a parede do quisto, é praticamente inevitável remover também uma parte do córtex ovárico — o tecido onde estão os folículos, que é onde "moram" os óvulos;
- estudos recentes mostram que a cistectomia reduz a hormona anti-Mülleriana (AMH), marcador da reserva ovárica, em cerca de 40% após cirurgia unilateral e até 57% se for bilateral (Younis et al., 2019);
- e há ainda o problema da recorrência: aos 2 anos, cerca de 21% dos endometriomas voltam, e aos 5 anos esse número aproxima-se dos 50%. Cada nova cirurgia significa mais perda de tecido ovárico saudável.
Para uma mulher que ainda quer (ou pode vir a querer) engravidar, este custo é importante. É aqui que entra a escleroterapia.
O que é a escleroterapia?
A escleroterapia de endometriomas é um procedimento minimamente invasivo, em ambulatório, com guia ecográfico. Em vez de cortar e remover o quisto, faz-se o seguinte: introduz-se uma agulha fina por via vaginal até ao interior do quisto, aspira-se o seu conteúdo, faz-se uma lavagem com soro fisiológico e instila-se etanol (álcool) concentrado durante cerca de 10 a 20 minutos, antes de o re-aspirar. O quisto fica colapsado e cicatriza sobre si próprio.
O álcool age na parede interna do quisto através de quatro mecanismos complementares:
Citotoxicidade
Lesa a membrana das células da parede.
Trombose
Fecha os pequenos vasos da parede do quisto.
Desidratação
As células retraem-se e perdem viabilidade.
Fibrose
Cicatrização da parede; o quisto fecha sobre si.
Resultado: o quisto deixa de produzir conteúdo e fecha sobre si próprio — sem que se tenha removido um único folículo saudável.
Vantagens face à cirurgia
A escleroterapia não substitui a cirurgia em todas as situações, mas tem várias vantagens objetivas:
- Preserva a reserva ovárica — esta é a vantagem principal. Não se corta nem se remove tecido ovárico saudável.
- Sem internamento prolongado — feita em ambulatório, com alta no próprio dia (tipicamente 1 a 2 horas após o procedimento).
- Sem cicatrizes na pele — o acesso é por via vaginal.
- Repetível — se houver recorrência, pode repetir-se sem o efeito cumulativo de uma segunda cirurgia.
- Sinergia com FIV — em mulheres com indicação para fertilização in vitro, a redução do quisto melhora o acesso aos folículos durante a punção ovárica.
- Custo mais baixo e liberta tempo de bloco operatório para casos que precisam mesmo de cirurgia.
Funciona? Os números
A escleroterapia já é descrita há quase 40 anos — a primeira referência data de 1988, no Japão. Nos últimos cinco anos, com a publicação de várias revisões sistemáticas (a mais recente em 2025), começou a consolidar-se como uma alternativa real em casos selecionados.
A reserva ovárica é geralmente preservada, ao contrário do que acontece com a cistectomia. As recomendações internacionais mais recentes (ESHRE, 2022) já reconhecem a técnica como uma alternativa válida em mulheres selecionadas.
Quem é boa candidata?
Não é para todas as mulheres com endometrioma. A decisão é sempre individual e tomada em consulta, depois de avaliar imagem, idade, sintomas e desejo reprodutivo.
Boas candidatas
- desejo de engravidar agora ou no futuro;
- reserva ovárica diminuída (AMH baixo);
- endometriomas em ambos os ovários;
- endometrioma recorrente após cirurgia prévia;
- planeamento de FIV, com o quisto a dificultar o acesso aos folículos;
- quistos com 3 a 10 cm e aspeto típico em ecografia ("vidro fosco");
- contraindicação ou recusa de cirurgia.
Cautela / preferir cirurgia
- suspeita de malignidade na imagem (mesmo que pequena);
- endometriose profunda associada com indicação cirúrgica;
- quisto muito pequeno (< 25 mm) — pouco a ganhar;
- quem já não pretende preservar a fertilidade.
Como decorre o procedimento, passo a passo
Do ponto de vista da utente, é um procedimento que se assemelha bastante a uma ecografia ginecológica, com alguns acréscimos. Antes do dia: análises (incluindo β-HCG para excluir gravidez), ecografia detalhada e, em alguns casos, ressonância magnética. Discussão informada e assinatura de consentimento. Acompanhante para o regresso a casa.
No próprio dia, é instalada em maca em posição ginecológica, faz-se desinfeção vaginal e — conforme o protocolo — pode haver sedação ligeira ou apenas anestesia local. O procedimento em si dura, em média, 30 a 60 minutos. A maior parte desse tempo é o período de "espera" em que o etanol atua dentro do quisto (cerca de 15 minutos). A doente está acordada (na maioria dos casos), monitorizada, e pode comunicar com a equipa.
Em seguida estão os 5 passos da técnica. Para cada um, mostro à esquerda um esquema anatómico simples (visão coronal da pelve, com útero, trompas e ambos os ovários) e à direita uma versão esquemática do que se vê no monitor do ecógrafo durante o procedimento — tal como o ginecologista observa em tempo real.
Mapeamento ecográfico
Localizar e medir. A sonda transvaginal localiza o quisto e mede as suas dimensões (no exemplo, 7,2 cm). O ginecologista escolhe a trajetória mais curta entre a sonda e o centro do quisto, evitando vasos e ansas intestinais. Se o acesso não for seguro, o procedimento é cancelado neste momento — sem consequências.
Punção ecoguiada
Punção em trajeto curto e único. Uma agulha fina (cerca de 1 mm de diâmetro, ~16–17 G) atravessa o fundo da vagina (fórnix) e atinge o centro do quisto. Procura-se sempre a trajetória mais curta — menos estruturas atravessadas, menor risco de fuga e maior estabilidade durante a permanência.
Aspiração do conteúdo
Esvaziar até ao colapso. Com a agulha bem posicionada, aspira-se todo o conteúdo do quisto até as paredes colapsarem. O líquido tem a cor de "chocolate" característica do endometrioma — sangue antigo. Aspira-se até deixar de sair conteúdo: qualquer resíduo dilui o álcool que se vai injetar a seguir.
Lavagem com soro — o teste de fuga
Antes do álcool, o soro. Injeta-se soro fisiológico e observa-se: se o soro fica retido e o quisto re-dilata, a parede está estanque — pode-se prosseguir. Se o soro escapa para a pelve, paramos imediatamente e não chegamos a injetar etanol. Este é o coração da segurança da técnica.
Etanol · 10–20 min · re-aspiração
Etanol durante 10 a 20 minutos, depois retira-se tudo. Injeta-se etanol concentrado num volume cerca de 60% do que foi aspirado. Durante a exposição (10 a 20 minutos, tipicamente 15) o álcool atua nas paredes do quisto; no monitor vêem-se pequenas bolhas características. No fim, re-aspira-se todo o álcool e a agulha é retirada — o quisto fica colapsado e cicatriza nas semanas seguintes.
O momento de segurança: o "teste do soro"
Há um detalhe que é o coração da segurança desta técnica e que vale a pena explicar: depois de aspirar todo o conteúdo, antes de injetar o álcool, faz-se uma lavagem com soro fisiológico. Se o soro fica retido dentro do quisto e dilata as suas paredes, a parede está estanque — pode-se prosseguir. Se o soro escapa para a pelve, paramos e nunca chegamos a injetar etanol. Documenta-se, retira-se a agulha, e reagenda-se ou referencia-se para cirurgia.
No fim, dá-se alta em 1 a 2 horas se tudo estiver estável. Receita-se um analgésico simples, se necessário. Não se deve conduzir nas 12 horas seguintes, porque uma pequena fração de álcool pode ser absorvida pelo organismo.
E os riscos?
Como em qualquer procedimento, há riscos. Numa série de 126 mulheres seguidas durante 8 anos (Miquel et al., 2024):
- complicações ligeiras em cerca de 11% (dor, reação vagal — sintomas curtos e auto-limitados);
- complicações importantes em 1,7%: infeção pélvica que precisa de antibiótico (~1%), abcesso ovárico que requer drenagem (~1,5%) ou intoxicação alcoólica que justifica vigilância em UCI (<1%);
- zero mortes.
A intoxicação por álcool é a complicação mais "específica" desta técnica e é também a mais rara: acontece quando há fuga do etanol injetado para fora do quisto. Por isso o teste do soro existe — é precisamente para a prevenir.
Para a utente, os pontos práticos são:
- spotting ou ligeira dor pélvica nos primeiros dias é normal;
- febre, dor crescente ou corrimento com cheiro intenso são sinais de alarme — contactar a equipa.
E se as coisas não correrem como esperado?
Em cerca de 7% dos casos a parede do quisto não é estanque e o soro foge na lavagem. Nessas situações não se prossegue — opta-se por cirurgia ou por nova tentativa noutro momento.
Em cerca de 1,5% dos casos o conteúdo do quisto é tão espesso que não se consegue aspirar adequadamente. Nestas situações há alternativas: escleroterapia por cateter (usando um cateter mais estável em vez da agulha) ou escleroterapia por laparoscopia (combinada com cirurgia, útil sobretudo se houver endometriose profunda associada).
Em síntese
- É um procedimento minimamente invasivo, feito por ecografia, sem cortes na pele.
- Demora 30 a 60 minutos e tem alta no próprio dia.
- O objetivo é preservar o ovário e a fertilidade.
- Funciona em mais de 95% dos casos em termos técnicos; o quisto reduz-se ou desaparece na maioria.
- Complicações graves são raras (< 2%).
- Pequena quantidade de álcool no sangue durante algumas horas — não conduzir nas 12 h seguintes.
- Pode haver dor ligeira ou spotting nos primeiros dias.
- Faz-se ecografia de controlo 1–2, 3 e 12 meses após o procedimento.
A escleroterapia não é uma solução para todos os endometriomas. É uma alternativa real à cistectomia em mulheres selecionadas, em particular naquelas em que preservar a reserva ovárica é prioritário. A decisão deve ser sempre tomada em consulta, depois de avaliar a sua história, a imagem e os seus planos.
Se está a discutir opções terapêuticas para um endometrioma, esta é mais uma ferramenta no leque — e cada vez mais disponível em Portugal.
Para saber mais
Algumas referências utilizadas neste artigo:
- Miquel L et al. Transvaginal ethanol sclerotherapy in 10 steps. Fertil Steril. 2021;115:259–260.
- Miquel L et al. Ethanol endometrioma sclerotherapy: safety through 8 years of experience. Hum Reprod. 2024;39:733–741.
- Younis JS et al. Overview of systematic reviews on endometrioma sclerotherapy. Front Endocrinol. 2025;16:1612899.
- Younis JS et al. Cystectomy impact on AMH: SR + meta-analysis. Hum Reprod Update. 2019;25:375–391.
- ESHRE Endometriosis Guideline. Hum Reprod Open. 2022;2022:hoac009.