Como fazer uma Casa da Árvore 2 – fixações na árvore

Esta é a segunda parte do projeto casa da árvore. Já vimos os preparativos e as fundações. Vamos analisar agora as fixações na árvore.

Este tema é muito importante… Numa árvore alta e uma casa unicamente fixada nesta, toda a estrutura assenta nestes pontos, pelo que a questão da segurança deve ser enfatizada. Facilmente se colocam 2 toneladas de madeira (e humanos pequenos e graúdos) em cima da estrutura, pelo que os pontos de suporte têm de ser capazes (e a árvore também).

Fixações na árvore
Uma das duas fixações principais da estrutura na árvore.

O básico dos suportes/ fixações na árvore

  • Usar o menor número possível de fixações na árvore: melhor um furo grande do que vários pequenos
  • Cada furo é uma “ferida”, nunca se devem fazer furos próximos, especialmente na vertical, pois as “feridas” tendem a juntar-se, apodrecendo o local de fixação
  • Pregos na árvore nunca são boa ideia: Para além da agressão, tendem a soltar-se facilmente, com o crescimento da árvore
  • Furos em profundidade não são piores para a árvore do que furos superficiais, e dão fixações mais seguras: A camada “viva” do tronco são os anéis mais externos.
  • Fixações específicas são muito caras, mas muito seguras. Grandes espessuras de aço carbónico (estrutural) temperado em varões roscados são baratas, mas implicam trabalho a adaptar.
  • Lembrar que o aço não é todo igual: Inoxidável é ótimo contra a corrosão mas tem menos resistência que aço estrutural classificado; Aço 8.8 é resistente, de fácil aquisição, e o preço é razoável. Tem de ser galvanizado ou zincado para melhor proteção de corrosão.
  • Parafusos grandes são caros, mas necessários.

Ferragens de fixação à árvore

Existem fixações específicas (Treehouse Attachment Bolt) para casas construídas em árvores. São mais resistentes e permitem movimentos da árvore independentemente da estrutura. Estes movimentos são pequenos mas muito poderosos, pelo que devem ser equacionados. É isso ou esperar que um dos elementos ceda (madeira ou parafuso).

Fixação profissional para casas na árvore
Fixação profissional em aço temperado, do criador original deste tipo de fixação.

Os movimentos da árvore são de especial consideração numa construção alta (os movimentos da árvore são maiores quanto mais longe do seu fulcro – o chão), e numa árvore mais fina, e, por isso, mais flexível. Não esquecer que a parte mais alta das árvores é também a mais fina, pelo que os movimentos são proporcionalmente ainda maiores.

Efeito do vento sobre o tronco da árvore
Efeito do vento no tronco da árvore: Fixações mais altas sofrerão maior deslocação relativa do tronco

Fixações na árvore: Lag bolts, Tirefond ou Tirafundos

Muito procurei lag bolts (tirefond, tirafundo) de 1 polegada de diâmetro (cerca de 2,54cm) de diâmetro, sem grande sucesso, pelo menos com preços aceitáveis. É ainda difícil arranjá-los em aço (muitos são de ferro). Depois têm de ter comprimentos na ordem dos 20 cm de penetração na árvore, o que dá (pelo menos) 24cm de parafuso. São monstruosos.

Acabei por comprar de 16mm de diâmetro e 16cm de comprimento para fixações acessórias, por exemplo, na ancoragem de “joelhos” a 45º à árvore. Estes servirão ainda para fixações seguras da estrutura de madeira.

Fixação na árvore com varão roscado aço 8.8
Esta é a fixação da viga principal na árvore. Varão roscado de aço 8.8 de 20mm. O “Joelho” do lado esquerdo está fixado à árvore com um Tirefond 16*160mm.

Fixações na árvore: Aço roscado 8.8

Rendi-me a utilizar varões de aço 8.8 roscado de metro. 8.8 é a classe de resistência, e neste caso o primeiro “8” refere-se a 800 N/mm² de resistência a tração e o “.8” a 80% desse valor em tensão de limite elástico. Mais vulgarmente utiliza-se aço sem classificação ou 4.8, que tem  metade da resistência. Por isso cuidado ao comprar. Normalmente o varão é pintado numa das pontas: Amarelo significa 8.8.

Aço roscado 8.8
Aço 8.8 roscado em varão (note a marca amarela – classe 8.8)

Estes varões podem ser cortados com uma rebarbadeira (ou serra, se houver paciência) na medida pretendida. Com algum esforço, um varão de pode ser inclusive atarraxado na madeira. A sua rosca está construída para aperto com porca métrica e não em madeira, mas a resistência à tração não é a característica que procuramos: É a resistência de cisalhamento, a resistência à dobra ou quebra quando aplicada a força da estrutura construída.  O truque para usar uma rosca métrica que fique fixa na madeira está em usar uma broca de madeira 1-2 mm mais fina do que o diâmetro nominal do varão.

Depois ainda é preciso a chave de impacto, paciência e lubrificação, pois o atrito gerado pela rosca é imenso. Na ausência de chave de impacto, ou se o atrito for demasiado, é necessária uma chave de canos (chave de tubos, chave stillson ou grifo) ou um tubo de aço comprido para fazer rodar uma chave de bocas normal. No meu caso usei azeite para lubrificar a rosca. Pareceu-me bem tratando-se de uma oliveira…

Pré furação para fixação de parafusos na árvore

Depois de escolher o local da fixação é necessário furar. Não existe inconveniente em furar a árvore de lado a lado. Isto até pode ser vantajoso, permitindo com o mesmo furo e maior resistência, fixações nos dois lados. Neste último caso a broca deve ter o mesmo diâmetro do parafuso a introduzir. Caso contrário, a furação deve ser equivalente ao menor diâmetro (interior) do parafuso. No caso de um Tirefond de 16mm nominais será cerca de 12 mm o diâmetro interno.

trados de madeira
Brocas de madeira grandes (trados – “auger”).

Ao fazer a furação, marcar na broca com fita adesiva a profundidade desejada, esta resultado da subtração ao comprimento nominal do parafuso da espessura do material a fixar na árvore. Ou seja, tábua de 4cm mais anilhas = furação de cerca de cerca de 11cm para um parafuso de 16cm. Usar um nível para furar horizontalmente e confirmar frequentemente. Usar a velocidade menor (maior binário = força) do berbequim. Estas brocas progridem muito bem mas exigem muito binário do equipamento (agarre-o com segurança).

Furo em oliveira para fixação de aço roscado
Furo para fixação numa árvore, neste caso de 18mm. Note e não repita o erro no corte do ramo. Primeiro cortar de baixo para cima e depois de cima para baixo, para evitar a queda e arranque pelo peso.

Fixar um varão roscado e usá-lo como parafuso à medida

Um varão roscado (ver acima) não tem “presa” para chave. Se a fixação é de lado a lado, introduz-se no furo e aperta-se com porcas de ambos os lados. Caso contrário, corta-se a medida pretendida e colocam-se duas porcas num dos lados, na extremidade. A porca mais externa aperta contra a interna e não rodará mais, permitindo o aperto de todo o conjunto.

Não é suposto ser um aperto fácil. Prepare-se para usar um tubo de aço para desmultiplicar a força ou a chave de tubos (Stillson, grifo) maior que encontrar.

Apertar fixação na árvore; chave stillson, chave de tubos, grifo
Quando a madeira é dura e o varão comprido, tem mesmo de ser com chave de tubos. Ainda bem que nos podemos revezar com um amigo… Note-se o pormenor da marca com fita adesiva, já perto da árvore, que determina a profundidade desejada.
Pormenor de estrutura de madeira fixada numa árvore
Se a árvore estiver inclinada pode afastar a estrutura (não convém que fique encostada) com uma ou mais porcas

Fixações na árvore: cuidado

Não menospreze este subtema. A falência destes suportes coloca em causa toda a sua estrutura. É melhor errar por excesso. Se não usar TAB’s, use uma varão de aço temperado 8.8 adequado. Existem disponíveis com 30mm de espessura, e são mais baratos do que parafusos equivalentes.

Note que nos exemplos acima a estrutura tem vários pontos de suporte ao chão, sendo a árvore responsável por uma pequena parte do peso a suportar.

De lembrar ainda que existe sempre um elo mais fraco, e esse pode ser a árvore. Escolher bem a mesma!

A estrutura acima tem dois pontos de fixação. No cimo ao centro vemos um varão de aço roscado, em baixo um Tirefond 16mm. Os “joelhos” estão fixos com parafusos de 12mm no suporte horizontal

 

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Segurança no trabalho, projetos mais felizes

Este artigo abrange todos os aspetos de segurança e material de proteção relacionados com os passatempos/hobbies. Todos derivam dos necessários para os profissionais. O problema é que os profissionais tiveram treino específico, por vezes regulamentado e obrigatório. Aqui ficam algumas dicas sobre como trabalhar melhor, sem surpresas infelizes.

Este artigo não pretende substituir formação específica ou ser exaustivo, apenas alertar para os pormenores mais básicos dos aspetos relacionados com material de proteção e segurança, sobretudo no âmbito do que conheço melhor e já usei.

Só temos um corpo, temos de o preservar.

O vestuário para trabalhar

Como mínimo, a roupa deve cobrir todo o corpo. Isto é válido para a maioria das artes. Manga comprida, mesmo no calor, protege contra salpicos de produtos químicos, projéteis a baixas velocidades (rebarbas de metal, fragmentos de pedra), sol (não menosprezar) e diminui lesões relacionadas com farpas de madeira, arranhões, etc.

Pessoalmente gosto de usar calças de trabalho, porque são mais largas, confortáveis e resistentes que calças normais, por um preço por vezes bem mais barato (25-35€ por boas calças). Têm ainda muitos bolsos e, normalmente, locais para colocar joelheiras.

Joelheiras universais para calças de trabalho
Joelheiras universais para cortar à medida e colocar em calças de trabalho

Uma camisola de manga comprida e, eventualmente, um colete com mais uns bolsos completam a indumentária.

O calçado de segurança

Botas de trabalho são mais baratas do que ténis, duram mais e não são comparáveis em termos de proteção contra dissabores. Qualquer calçado de trabalho será melhor do que o que tiver lá por casa, mas, como características a procurar, tem:

  • Sola resistente a óleos; eventualmente resistente a altas temperaturas
  • Sola com proteção, pelo menos básica, contra perfurantes (pregos)
  • Preferencialmente de “cano” alto
  • Confortáveis e adequado à estação (alguns são específicos de verão ou inverno).
  • Com biqueira de aço ou plástico duro, para proteger os dedos dos pés.
Botas de segurança e calças de trabalho
Botas de segurança e calças de trabalho. Ao nível dos joelhos podem ser introduzidas esponjas para proteção dos mesmos

Calçado deste tipo começa nos 20€. Experimentar, valorizar o conforto e pensar bem no que se pretende. Existem galochas e sapatilhas com estas características, tudo depende dos trabalhos a realizar e do conforto pretendido. Um engenheiro ou fiscal pretende algo com que possa deslocar-se entre locais sem ter de trocar de calçado. Um trolha pretende funcionalidade e polivalência (conforto, impermeabilidade, resistência). Um eletricista poderá abdicar de alguns destes aspetos (não todos!) e um pedreiro poderá beneficiar de mais alguns (nomeadamente maior resistência a impactos).

Acessórios de proteção individual

Óculos de segurança

Uso sempre proteção ocular. Mesmo no meu trabalho diário esta é importante contra, por exemplo, salpicos de sangue durante um parto ou cirurgia.

Óculos de segurança
Óculos de segurança em policarbonato transparente.

Há vários tipos de óculos de proteção, seja ela genérica ou específica. Não me vou debruçar sobre proteção específica para, por exemplo, soldadura.

Os óculos de proteção são habitualmente produzidos num material chamado policarbonato. É um material plástico muito resistente contra impactos, e com característica óticas muito boas. É o mesmo material que compõe muitas das lentes dos óculos de sol normais.

As diferenças entre marcas situam-se, sobretudo, na durabilidade, conforto e  revestimentos (por exemplo anti-riscos e anti-embaciamento). Sendo um plástico, é realmente sujeito a riscos, pelo que se deve ter cuidado na sua limpeza (água e sabão, sempre).

Para não embaciarem, os revestimentos ajudam, mas nada como os manter limpos! Óculos perfeitamente desengordurados não embaciam tanto.

Uso dois tipos de óculos:

  • Os “normais” ou abertos para trabalhos genéricos (e maioria das situações). Estes são mais frescos, não incomodam e providenciam boa proteção.
  • Os fechados são importantes para trabalhos com grande quantidade de material projetado (rebarbar aço, cortar pedra, aplainar madeira, lixar). São mais difíceis de usar oferecem melhor proteção.

    Óculos e máscara de proteção contra poeiras nocivas.
    Proteção contra poeiras nocivas. Óculos fechados e máscara.

Em relação à cor das lentes, esta é habitualmente transparente (mais usual), escura (trabalhos ao sol) ou amarela (melhor contraste em situações de pouca luminosidade).

Máscara

Desde uma simples máscara para poeiras, descartável, até uma máscara para vapores com filtros substituíveis, há uma panóplia de opções nestes produtos.

Gosto das máscaras simples, descartáveis com válvula, já que o seu uso é esporádico. Para construir a casa da árvore, adquiri uma com melhor proteção, já que a madeira tratada em autoclave requer cuidados com as poeiras.

Máscara de segurança para poeiras
Máscara descartável adaptável, com válvula

Capacete

Um capacete plástico básico é requisito num local de construção, para todos. Não o usar é… arriscar. Que o digam todos os que, como deu, já deram umas cabeçadas desnecessárias…

No entanto, um chapéu com proteção dura pode ser um ótimo substituto, e até mais confortável. Dão também proteção para o sol. Adquiri um desde o último encontro imediato com um viga.

Capacete de proteção, óculos, luvas
Capacete de proteção clássico, óculos, luvas.

Luvas

Devo começar por lembrar que as luvas se devem ajustar convenientemente ao tamanho da mão. Como cirurgião, posso atestar que os meios tamanhos fazem toda a diferença na destreza dos gestos. Habitualmente não se encontra este pormenor em material de proteção para bricolage, mas desconfie de luvas com tamanhos “pequeno” e “grande” apenas, ou luvas com tamanho “7-9”. Ou é 7, ou 8, ou 9…

Para trabalhos pesados, com material com possa magoar as mãos, nada como umas boas luvas de cabedal.

Para trabalhos com óleos e outros químicos não perigosos, luvas cirúrgicas de vinil descartáveis não esterilizadas vendem-se em pacotes de 100 e são ótimas. O látex pode deteriorar-se mais rapidamente em contacto com hidrocarbonetos (óleo do carro, por exemplo) pelo que vinil será melhor opção.

Como luva polivalente, gosto de um bom par de luvas de nitrilo. São em tecido elástico, com revestimento flexível aborrachado, fino, com boa aderência e suave. Dão proteção razoável e ótima destreza, quando o tamanho é adequado.

Luvas de trabalho
Luvas flexíveis com revestimento em nitrilo. As minhas favoritas.

Trabalhos em altura

Tenho que avisar que, o melhor… é não os fazer. Não é à toa que indivíduos são especializados neste tipo de trabalhos. É claro que subir um escadote ou caminhar num andaime é já um trabalho em altura, e não deve ser menosprezado.

Se vai subir a uma escada tenha uma boa escada. Eu sei que parece filosofia barata, e me estou a repetir com a questão da qualidade, mas uma escada ou escadote tem de ser estáveis e estar em bom estado.

A trabalhar numa árvore ou telhado, como mínimo, um arnês (do tipo de escalada, por exemplo) com uma boa corda pode salvar-lhe a vida em caso de azar. Não esquecer que fazemos a nossa sorte!

Arnês de proteção
Arnês de proteção

Conclusão

Para além de uma ótima dose de bom senso e observação de boas práticas de segurança adequadas ao trabalho em questão, estes são os itens que devem estar a par do conjunto de ferramentas. Boas ferramentas e trabalhos fáceis são perigosos à mesma. O ideal é nunca facilitar. Nunca sabe se terá uma segunda.

 

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Doação de esperma e inseminação nos centros públicos de PMA

Foi recentemente publicada a regulamentação da revisão da lei da PMA 17/2016, de 20 de junho. Fiz um pequeno comentário aqui. Muitas mulheres (e cidadãos) vêm com agrado esta alteração e a equidade que a mesma transparece. O que a comunicação social não se apercebeu é do problema antigo em relação à doação de gâmetas no SNS, nomeadamente esperma.

O panorama atual das listas de espera para PMA

Nos centros públicos não existe infraestrutura montada para dar resposta ao esperado aumento de procura dos tratamentos em geral. Basta ver as listas de espera para tratamento, que se aproximam de um ano em alguns locais. Resta esperar para ver de que afluência estamos a falar e que impacto terá no panorama atual.

Mas este nem será o maior problema. O maior problema relaciona-se com a capacidade instalada no público para fornecer gâmetas masculinos de dador (esperma) para os tratamentos de casais que dele necessitem (sejam de mulheres ou heterossexuais), ou mulheres sem parceiro.

Como se processa atualmente a doação de gâmetas em Portugal?

Neste momento existe um único centro público que colhe, armazena e utiliza estes gâmetas de dador. Este centro apoia, na medida das suas possibilidades, os restantes centros públicos quando o tratamento passa por doação de gâmetas (esperma e ovócitos). O CHP (CMIN) assumiu este difícil compromisso e contou com pouco apoio até agora. Os tratamentos com doação de gâmetas (especialmente ovócitos) doados tendem a ser muito demorados.

recrutamento de dadores de sémen (esperma)
Campanha Australiana de recrutamento de dadores de esperma

Vários centros privados fazem banco de esperma (e de ovócitos) para uso próprio, outros importam na medida das necessidades para os seus tratamentos. Esta flexibilidade permite uma resposta mais célere às solicitações, que, infelizmente, ainda não existe nos centros públicos.

O problema da falta de dadores de esperma e ovócitos

Tem sido difícil recrutar dadores em Portugal. Pode passar por um problema cultural ou de desconhecimento. Falta de publicitação ou não, é um problema que se arrasta há alguns anos.

Campanha de doação de esperma de uma clínica privada espanhola (Instituto Marqués)
Campanha de doação de esperma de uma clínica privada espanhola

Acresce que vários voluntários não passam ainda o crivo para poderem ser dadores. Isto diminui ainda mais a oferta.

Em Espanha a publicidade tende a ser bastante agressiva. Talvez por isso mais eficaz e permita a exportação destas dádivas.

Campanha de doação de ovócitos de uma clínica privada espanhola
Campanha de doação de ovócitos de uma clínica privada espanhola

Talvez precisemos de algumas campanhas e, sobretudo, de visibilidade sobre este problema no panorama nacional dos media.

Recompensa económica na doação de esperma e ovócitos

A lei proíbe qualquer tipo de recompensa económica aos dadores, tal como qualquer dádiva de tecidos ou células: “é voluntária, altruísta e solidária, não podendo haver, em circunstância alguma, lugar a qualquer compensação económica ou remuneração” (Lei 12/2009)

Isto inclui os gâmetas. É dada no entanto uma compensação proporcional ao incómodo/perda causado pelo ato (despacho 5015/2011). Doação de esperma 0,1 e doação de ovócitos 1,5 do Indexante dos Apoios Sociais (419,22€ em 2016). No caso da doação de esperma, cerca de 41€ por dádiva (colheita), e cerca de 630€ por dádiva de ovócitos.

O que é necessário? Quem pode ser dador?

Homens entre os 18 e 45 anos e mulheres entre os 18 e 34 anos, saudáveis, são candidatos à dádiva. É necessária alguma disponibilidade para comparência para avaliação médica, eventualmente psicológica, e alguns exames.

Existe algum perigo na doação de gâmetas?

É um processo seguro, com poucos riscos (mulher) ou quase nenhum (homem).

A aplicabilidade da inseminação artificial em mulheres sem parceiro/casais de mulheres em centros públicos

Não há dúvida que a lei é clara, e os centros públicos terão de dar resposta aos novos casais/mulheres que querem e podem beneficiar de tratamentos de PMA. No entanto, a curto prazo, muito terá de mudar para que a resposta seja tão pronta quanto se pretende.

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Lei 17/2016 da PMA – publicação da regulamentação

Foi hoje publicado o Decreto Regulamentar n.º 6/2016, que coloca em prática as alterações à lei da procriação médica assistida publicadas na lei 17/2016, de 20 de junho.

Injeção intracitoplasmátic de espermatozóide ICSI
ICSI – Ovócito antes de injeção intra-citoplasmática de espermatozóide
Por Dovidena [CC BY-SA 4.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0)]

O que mudou?

A grande alteração é a da garantia de acesso a todas as mulheres a técnicas de PMA. Ou seja, na redação do decreto: “casais de mulheres e a mulheres independentemente de um diagnóstico de infertilidade, do estado civil e da orientação sexual” podem beneficiar de técnicas de procriação medicamente assistida, como inseminação artificial, em centros de PMA públicos e privados.

Como ser referenciada à consulta de PMA?

A orientação para os hospitais públicos será feita como habitualmente, pelo médico de família ou a partir de outra consulta hospitalar. A diferença é que passarão a ser aceites não só casais mas também mulheres sem parceiro ou com parceiro feminino.

Que técnicas de PMA podem ser realizadas?

O acesso às técnicas é o mesmo que até agora estava reservado a casais com infertilidade, bem como as listas de espera. O documento reitera, logicamente, que na ausência de infertilidade, deva ser privilegiada a inseminação artificial.

Então está tudo pronto para que se comece a aplicar a lei 17/2016?

Existe ainda o problema dos dadores de esperma, assunto que já era problemático previamente, nos centros públicos. A procura de esperma de dador aumentará, o que terá de significar alterações no funcionamento dos centros públicos. Ou se aumentará drasticamente a infraestrutura implementada em Portugal (que tem um único banco público de gâmetas) ou se “importará” esperma de outros países, nomeadamente Espanha. O problema é que há atualmente poucos dadores no banco público. Os privados ultrapassam este problema com bancos de gâmetas próprios e/ou importação de gâmetas de outros centros/países.

O aumento da procura de tratamentos de PMA

Este aumento prevê-se, com uma possível afluência inicial dos pedidos de consulta de mulheres que tenham essa decisão já tomada. Tendo em conta que os tratamentos não poderão sofrer discriminação em termos de lista de espera, é de prever que as listas de espera se possam avolumar, pelo menos inicialmente, enquanto os centros de PMA públicos não se redimensionem para esta nova realidade. O tema dos dadores de gâmetas (neste caso masculinos) terá forçosamente um papel crucial nas listas de espera, já que os tratamentos agora regulamentados não se poderão fazer sem um aumento substancial daqueles.

 

 

 

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Como fazer uma Casa da Árvore, parte 1

Este é um sonho de criança. Lembro-me de ver Os Simpsons e pensar que o Bart tinha muita sorte. Aquela casa da árvore ficou-me gravada na memória.

Primeiro é preciso ter filhos para ter a desculpa, um terreno para a construir, e depois, claro, uma árvore. Mas nem isso é problemático, pois a construção de madeira é interessante mesmo sem árvore. Claro está, uma árvore de grande porte com ramos abertos é outro encanto.

O projeto foi amadurecido durante anos, mas foi há meses que começou a delinear-se em concreto. Primeiro foi a escolha do local, uma boa árvore, resistente, num bom local. A melhor árvore estava longe do melhor local:

Árvore
Esta e outras árvores ótimas para este tipo de construção estavam longe da casa (de pedra).

A árvore para a casa da árvore

Mas a alternativa não está mal: Mesmo em frente à casa (para poder vigiar os miúdos) uma ótima vista, bom espaço à volta, bom porte. É uma oliveira, com várias centenas de anos, dizem os entendidos.

Oliveira
A árvore selecionada

O projeto

Depois do local (e árvore) escolhido é necessário desenharmos um projeto para a casa da árvore: Para idealizar a estrutura, calcular o material. Para ter noção perfeita das medidas é preciso ver tudo muito bem no terreno (daí as varas que vêm na foto acima). E esta parte é onde se dá asas à imaginação, aproveitando a envolvência para criar algo de único. As crianças colaboram com ideias que só elas conseguem ter, e tudo fica mais pessoal.

Preparação

Não é possível desenhar um projeto sem ter umas luzes de estruturas semelhantes, porque, afinal é uma casa na árvore! Mesmo tendo noções de construção tradicional, as particularidades de uma construção em altura, suportada numa árvore são muitas. É sem dúvida necessário perder umas horas a estudar projetos na Internet, eventualmente ler um livro sobre o assunto (li um que recomendo vivamente- Black & Decker The Complete Guide to Treehouses, 2nd edition: Design & Build Your Kids a Treehouse). No nosso caso, e para o tamanho da estrutura que se pretendia (uma plataforma de 4*3m), apenas 2 suportes foram projetados na árvore, tendo aquela postes para suporte ao solo, o que facilitou o projeto e aumentou a estabilidade da estrutura.

Casa da árvore - rascunho
Rascunho do projeto inicial

Como podem ver acima, um rascunho inicial da casa da árvore ajuda a perceber (e adaptar) a estrutura. Quando as ideias estiverem mais fixas, um desenho onde se tenha em conta as dimensões do material é importante.

Execução

Abaixo podem ver que ainda existem algumas incógnitas, sobretudo pelo ângulo da trave (a azul) ancorada na árvore (um dos dois pontos de fixação na mesma), mas as dimensões estão contempladas: Postes torneados de 16cm de diâmetro e postes quadrados com 15cm para os suportes ao solo (quadrados de 10cm na escadaria), uma trave de 22*8cm, e o resto da estrutura são tábuas de 24*4cm, utilizadas com os 24cm na vertical (esta é uma boa forma de reduzir o peso do material aumentando a resistência).

A estrutura está calculada para um vão máximo entre suportes de cerca de 250cm. Ter em atenção um espaçamento entre vigas (tábuas dispostas verticalmente) máximo de 60cm. Não esquecer de adicionar a parte enterrada dos postes para calcular a altura total dos postes a encomendar.

Desenho da estrutura da plataforma
Desenho da estrutura da plataforma, cada quadrícula 10cm
Estruturas laterais (paredes) da casa da árvore.
Estruturas laterais (paredes) da casa da árvore.

As estruturas das paredes podem ser bem mais finas. Barrotes de 4*6 cm chegam perfeitamente, em espaçamentos de 40-60cm.

Preparativos

O material a utilizar pode ser madeira recuperada, se existir, o que limitará o projeto ao que está disponível. No nosso caso escolhemos pinho tratado em autoclave, classe IV. Não foi fácil estimar todo o material necessário, mas os desenhos ajudaram, especialmente no material mais caro (maiores espessuras).

Importante também é ter alguém com quem realizar o projeto. O meu sogro ajudou no projeto e trabalhou comigo em todas as ocasiões. Seria impossível fazer alguns dos trabalhos sozinho e em algumas ocasiões contamos ainda com um ou outro amigo para ajudar.

Para cortar madeira, aplainar os postes, toca a improvisar um cavalete de material desperdiçado (veio a separar o material encomendado).

Um cavalete improvisado de desperdícios de madeira

Para poupar no material, optamos por comprar madeira em tosco. Depois de aplainar, mesmo com plaina elétrica todo o material que compõe a estrutura, estou verdadeiramente arrependido. Dá demasiado trabalho.

Aplainar madeira é fácil. Quando em vez de uma tábua temos centenas de peças, nem por isso.
Aplainar madeira é fácil. Quando em vez de uma tábua temos centenas de peças, nem por isso.
Uma nota sobre as ferragens

Não é nada fácil arranjar algum do material mais adequado para uma estrutura de madeira exterior. Pregos, por exemplo: tive muita dificuldade em comprar pregos galvanizados. Parafusos de madeira de grande calibre também não é fácil (tirefond ou lag bolts). Como sempre, na Internet há pouca coisa que não se arranje, mas em lojas, só fornecedores (lojas de ferragens corri várias).

Experiência?

Não se começa por um projeto desta envergadura sem ter feito coisas mais pequenas. No entanto, com a preparação adequada (muito estudo!), será possível a qualquer um(a) fazer uma casa numa árvore. Convenhamos que muitos projetos maravilhosos foram construídos por crianças, em que a imaginação compensa a falta de rigor na execução. Algumas noções de segurança são, no entanto, necessárias. Tentarei abordar as mais importantes.

E a ferramenta?

Não há maneira de ultrapassar o que vou escrever: É muito difícil fazer um projeto destes sem ter muita e boa ferramenta. Não conheci ainda um mecânico, pedreiro, carpinteiro ou, convenhamos, médico, que não valorizasse as boas ferramentas para o seu trabalho. Fica tudo mais rápido, mais perfeito, com menos problemas. Aqui, como em muitas coisas na vida, o barato sai caro. Acresce que as ferramentas sem fios são extremamente práticas nos trabalhos no exterior, mas facilmente custam duas ou 3 vezes mais que uma equivalente com fio. Compensa comprar várias máquinas que usem as mesmas baterias, pelo que vale a pena perceber qual o melhor negócio globalmente, não apenas na primeira compra.

Há coisas que se têm lá por casa e não servem, como um serrote que serviu bem para cortar aquela prateleira da garagem no ano passado, mas quando confrontado com uma viga parece mais uma aparelho de musculação da tvshop. Há ainda coisas que não se têm lá por casa, por muito bem equipada que esteja… Uma broca de madeira de 18x460mm não é algo que já se tenha usado…

De qualquer forma, fica o conselho: comprar ferramenta é uma vez, ao invés de gastar o pouco para depois nos apercebemos que devíamos ter gasto o suficiente.

As fundações

Buraco usado para um dos postes, com união a outro furo
Buraco usado para um dos postes, com união a outro furo

Uma casa da árvore pode ter apenas a árvore como suporte, mas, ou a casa é pequena, ou a árvore é enorme. Por isso usamos postes para suporte ao solo. Escolhemos fixar os postes a cerca de 60cm de profundidade em betão. Feitos os buracos e uma camada de cimento no fundo, assentamos os postes, envernizados na parte enterrada, com pregos fixados e malha soldada (malha sol) para aumentar a ancoragem ao cimento.

Poste preparado, 15*15cm
Poste preparado, 15*15cm.

Os primeiros postes a levantar definem muito e têm poucas referências, pelo que são mais difíceis de colocar. Neste projeto, os primeiros foram dois postes separados 3m pelo exterior, em esquadria, permitindo um retângulo que incluísse a árvore.

Neste momento é preciso ter em atenção o prumo dos postes, Não queremos ter um torre de Pisa.

Os dois primeiros postes levantados, alinhados, aprumados e ancorados
Os dois primeiros postes levantados, alinhados, aprumados e ancorados

Fazer massa de cimento: a que usamos foi feita com 3 partes (volume) de areia com uma de brita e uma de cimento, com água qb. Pode ter mais areia ou brita, sem problemas.

A partir daqui, o resto é colocado com base nestas referências. Colocar um ou dois postes de cada vez facilita, pois os primeiros estarão aptos a fixar os mais recentes, oferecendo pontos de ancoragem depois de tirar as medidas e níveis.

Os dois primeiros postes levantados, alinhados, aprumados e ancorados, com massa a secar
Os dois primeiros postes já com a massa a secar

Fim da parte 1…

Para ver mais:

Ir para a página do projeto, que agrega todos os temas e vídeos: Casa da árvore

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Uma aplicação android? Porque não?

Desde que tinha iniciado os trabalhos, há vários anos, para produzir as curvas de peso fetal/recém nascidos para a população Portuguesa, que tinha definido com os meus colaboradores a facilitação do uso das mesmas como parte integrante dos trabalhos.Várias maneiras de o fazer foram equacionadas e estão em curso, em programas específicos de obstetrícia e ecografia, página web, etc. Surgiu então o desafio de um dos meus coautores para fazer uma app android.

Facilitador de programação android

Eu gosto muito de informática, mas não sou programador… pensei eu. Mas acontece que, para android, um grupo de investigadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology) resolveu criar uma forma bem mais fácil de um utilizador sem conhecimento de linguagens de programação produzir uma app de aspeto profissional, democratizando a produção de aplicações à medida para os utilizadores e, até mesmo, comerciais. Chama-se appinventor (http://appinventor.mit.edu) e é uma aplicação para criar aplicações. O preço ainda é melhor – completamente gratuito.

É claro que ainda implica alguma aprendizagem, e com certeza envolve algumas luzes de programação, algoritmos e lógica, mas quem souber o que é um if then else terá dias ao invés de meses de aprendizagem.

A plataforma tem agora um spin off comercial – thunkable (http://thunkable.com/) com uma roupagem mais profissional, mas muito parecida. Nota-se que as aplicações são visualmente um pouco mais polidas e em linha com as guidelines da Google atuais, mas perde alguma compatibilidade com as versões mais antigas de android (mesmo muito antigas, pelo que isto não será um problema). Para já, a plataforma thunkable também é gratuita, e tem a promessa de vir a ser compatível com iOS, o sistema operativo mobile da Apple.

IG calc PT - aplicação para cálculo do percentil de peso fetal e Idade Gestacional
Ecrã principal da aplicação android publicada
thunkable scren - IG calc PT - aplicação android para cálculo do percentil de peso fetal e Idade Gestacional
O mesmo ecrã mostrado acima na página de layout da thunkable
thunkable scren1 blocks
Blocos por detrás do ecrã mostrado acima – aqui se constrói a programação da app

O suporte da comunidade a esta iniciativa, como é habitual nas plataformas open source úteis, é fabuloso. Quase todas as perguntas têm resposta em múltiplos websites de programadores, fóruns, páginas pessoais… Imensos exemplos estão disponíveis, sendo uma questão de perseverança até se concretizar uma app decente.

Não, não dá para fazer tudo, mas dá para fazer aplicações muito complexas. Eu fiquei maravilhado com a possibilidade de testar a aplicação enquanto se constrói, vendo as mudanças em tempo real no smartphone. Para alguém com pouca experiência, a iteração tentativa – erro – tentativa é rapidíssima.

As imagens acima dão um exemplo de uma página com algum nível de complexidade. Envolve cálculos, seleção de ficheiros, identificação de erros de introdução e respetivas notificações. Numa página temos o aspeto gráfico para o utilizador, os componentes e ficheiros que desejamos utilizar. Debaixo do “capot” construímos a lógica das interações com um sistema de blocos de construção que impedem a maioria dos erros de principiante (se não encaixa, é porque não dá).

Abaixo vemos o exemplo de um bloco associado a um botão que, quando pressionado, abre uma página web no navegador predefinido, e parte de um procedimento que calcula a idade gestacional a partir do comprimento crânio caudal medido em ecografia.

thunkable open site block
Este bloco abre o browser na página indicada quando o botão é clicado.
thunkable calc block
Este bloco calcula a idade gestacional a partir do CRL – comprimento crânio caudal, se este estiver preenchido.

E porque não fazer uma app hoje?

A aplicação encontra-se disponível e gratuita para Portugal na Google play store:

Ver aplicação

Alguns screenshots da aplicação:

IG Calc PT página inicial com cálculo de IG
Página inicial com opção de cálculo de IG aberta e gravidez datada por ecografia do 1ºT
IG Calc PT percentil
Exemplo da notificação do significado do valor encontrado para o percentil, depois do cálculo
IG Calc PT página de cálculos adicionais
Página de cálculos adicionais
IG Calc PT página inicial com cálculo IG
Página inicial com opção de cálculo de IG aberta e gravidez datada por data da última menstruação
IG Calc PT página about
Página “acerca de”

 

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Treino em laparoscopia | Simulador de laparoscopia

O treino específico com simuladores é fundamental para a melhoria permamente da capacidade técnica do cirurgião. Como fazer um simulador?

Cirurgia Minimamente Invasiva e Laparoscopia

A cirurgia minimamente invasiva tem um lugar muito importante na Ginecologia, tal como em muitas outras especialidades. No caso da ginecologia engloba fundamentalmente a histeroscopia e laparoscopia, técnicas bastante diferentes, mas ambas muito úteis.

Na histeroscopia, (procedimento diagnóstico ou cirúrgico intrauterino a partir da vagina e colo do útero, sem cicatrizes), a maior parte das técnicas cirúrgicas convencionais que esta veio substituir foram completamente abandonadas, dada a sua superioridade. Há pequenos procedimentos cirúrgicos histeroscópicos que podem inclusive ser realizados em consultório, sem anestesia, em poucos minutos, dada a sua acessibilidade e facilidade, com material e treino adequado.

Ilustração esquemática de histeroscopia (By BruceBlaus - Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=44969115)
Ilustração esquemática de histeroscopia
(By BruceBlaus – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=44969115)

Tempos de recuperação mais curtos, menos dores, resultado estético melhor são algumas das vantagens usuais neste tipo de técnicas. Por vezes as vantagens estendem-se também a melhor exposição (visualização), em locais de difícil acesso e, com isso, melhor precisão cirúrgica.

Ilustração esquemática de cirurgia laparoscópica. (Blausen.com staff. "Blausen gallery 2014". Wikiversity Journal of Medicine. DOI:10.15347/wjm/2014.010. ISSN 20018762)
Ilustração esquemática de cirurgia laparoscópica (Blausen.com staff. “Blausen gallery 2014”. Wikiversity Journal of Medicine. DOI:10.15347/wjm/2014.010. ISSN 20018762)

Uso de simuladores

No entanto, o treino para este tipo de técnicas é específico e tem uma curva de aprendizagem algo mais lenta. Requer muita prática para rapidez de execução e bons resultados. Pelo que o treino é necessário, inicialmente para iniciar a técnica e permitir segurança nos procedimentos com doentes (mesmo nas ajudas a cirurgiões mais experientes) e depois, para aperfeiçoar e desenvolver as capacidades particulares de que as técnicas necessitam.

Na laparoscopia este treino passa pelo uso de simuladores, mais ou menos complexos, em que os cirurgiões desenvolvem e aperfeiçoam as técnicas que usam no dia-a-dia. Habitualmente existem simuladores construídos profissionalmente em cursos específicos e em alguns serviços hospitalares, mas são muito caros para aquisição individual. Como a prática leva à perfeição, e esta é uma área que me interessa muito, construí um simulador de baixo custo que permite o treino e aperfeiçoamento individual em casa (habitualmente a laparoscopia ginecológica envolve dois ou mais cirurgiões).

Como fazer um simulador de laparoscopia?

Foi um projeto realizado há cerca de 5 anos, e nem tudo correu bem à primeira. Algumas soluções não serviram, outras foram mudadas. O resultado final foi no entanto satisfatório e muito funcional.

Caixa de arrumação transformada em doente simulado
Caixa de arrumação transformada em doente simulado

Quando prometi a um colega um simulador igual ao meu, em 2013, resolvi fazer um vídeo para levar a um congresso da área. Com isto poderia ajudar outros cirurgiões que, como eu, acham que é sempre possível aperfeiçoar a destreza cirúrgica e querem fazê-lo também em casa.

base simulador laparoscopia
Base do simulador

A prática das técnicas e coordenação motora necessária à boa performance em laparoscopia, pelo uso regular de um aparelho deste tipo, comprovadamente melhora os resultados cirúrgicos deste conjunto de técnicas avançadas, tão úteis em ginecologia.

Por curiosidade, outras atividades que foram ligadas a boa destreza cirúrgica em endoscopia: tocar um instrumento musical regularmente e jogar videojogos.

De seguida o vídeo, com realização, representação, edição, locução e legendagem por mim (bom, música, parcialmente, também), pelo que me serviu para aprender muito também noutras áreas. A música é da Tuna Académica de Biomédicas, do seu primeiro CD.

Este vídeo foi apresentado no ESGE 22nd annual congress com o código V05.10, em 18/10/2013.

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Percentis de peso fetal para a população portuguesa

Os pais querem sempre que os seus filhos sejam os maiores, mas fortes, mais inteligentes… Menos na gravidez. Sempre que se afastam da média ficam preocupados, especialmente se o crescimento/peso fetal, for baixo. O problema é que, por definição, metade dos bebés está abaixo da média, pelo que a angústia é frequente e poucas vezes fundamentada.

As curvas nacionais

Percentis de peso para a população Portuguesa
Percentis peso fetal/ao nascimento para ambos os sexos

Recentemente, eu e os meus coautores publicamos curvas de crescimento fetal para o nosso país (ver aqui).

É a maior amostra colhida no nosso país e a única validada desta forma. A importância está em podermos comparar (quando necessário) um peso fetal estimado ou ao nascer com uma população de referência compatível e credível.

Existem centenas de referências deste tipo no mundo inteiro, que diferem substancialmente entre elas, e, sobretudo, dos dados nacionais.

Para que servem?

Na avaliação do crescimento fetal, durante a gravidez, e ao nascimento, um dado é frequentemente calculado/colhido: o peso.

Este peso é comparado com aquilo que se espera para a idade gestacional (semanas de gravidez), de forma a podermos perceber se é adequado. Mas antes de podermos tirar qualquer conclusão, vários aspetos devem ser tidos em consideração .

Estimativa de peso por Ecografia

No caso da estimativa de peso por ecografia, trata-se de um peso estimado com base em parâmetros ecográficos, habitualmente o perímetro cefálico,

HC, BPD
Perímetro cefálico (HC) e diâmetro biparietal (BPD) fetais em ecografia abdominal

diâmetro biparietal (largura da cabeça), perímetro abdominal e comprimento do fémur. Estes parâmetros são usados em uma de dezenas de fórmulas publicadas (mais frequentemente uma de um autor chamado Hadlock) e o resultado é um valor estimado de peso. Este  resultado é naturalmente falível, e o erro associado pode ser verificado nos artigos escritos pelo próprio Hadlock:

  • Cerca de 68% dos fetos cairão dentro da estimativa +- 7,5% (1 erro padrão)
  • Cerca de 95% dos fetos cairão dentro da estimativa +- 15% (2 erros padrão)
erro ecográfico peso fetal
Exemplo de uma estimativa ecográfica do peso fetal de 3000g e representação do erro potencialmente associado

Como exemplo podemos considerar que, 68% das vezes, um recém nascido a quem foi estimado recentemente um peso de 3000g tenha entre 2750g e 3250g ao nascer. Esta diferença poderá chegar aos 450g em 27% adicionais e ultrapassar este valor em 5% dos fetos. Esta é a forma como funciona a fórmula, pelo que não é passível de melhoria, mesmo com muita experiência do ecografista. Vários autores propuseram outros métodos, mas sem melhoria significativa ou aplicabilidade prática.

Ainda assim, isto serve o seu propósito: é um parâmetro dos muitos a avaliar, e não um valor para interpretar cegamente.

O meu bebé tem uma doença por ser leve/pequeno?

Os seres humanos tem o crescimento fetal governado por vários fatores: sexo (rapazes são maiores); herança genética e raça; tamanho (e peso) da mãe; doenças da mãe; paridade (número de filhos anteriores); alimentação (de certa forma relacionada também com peso/obesidade); álcool e tabaco durante a gravidez (tabaco diminui o peso ao nascer em cerca de 5%); altitude (do local onde vive); etc.

Mesmo colhendo todos estes dados (e foram colhidos em vários estudos), é impossível prever o peso da criança. O que é possível é prever um âmbito (intervalo) onde é estatisticamente provável que se encontre esse peso.

Feitio ou defeito?

Todos os bebés têm um potencial de crescimento: um peso que, sem limitações externas, ambientais ou de doença, irão atingir. A dificuldade está em perceber que potencial é este para cada criança, algo que nos ilude enquanto médicos. Porque se trata de perceber que fetos/bebés estão mais pequenos do que deveriam estar, e, por isso mesmo, não se diagnostica só por um valor de peso. Um feto no percentil 1 pode ser perfeitamente saudável, e outro no percentil 50 ter um problema porque deveria manter crescimento no percentil 80 (ou seja, está a crescer “menos” do que deveria).

Fala-se em atraso do crescimento intra uterino, restrição do crescimento intra uterino ou restrição do crescimento fetal (RCF) quando o potencial de crescimento, segundo a interpretação do médico, não foi atingido. É algo que naturalmente assusta os pais e, infelizmente, causa muita angústia em gravidezes também de evolução normal, mas com fetos simplesmente mais pequenos que a maioria…

O que é o percentil

O percentil tem um significado puramente estatístico. O percentil 50, por exemplo, corresponde à mediana, que é o valor que está “no meio”, ou seja, divide a amostra com o mesmo número de indivíduos acima e abaixo desse valor. No caso do peso, aproxima-se bastante da média. Se dizemos que um feto está no percentil 20 do peso, constatamos que a posição numa amostra de fetos com a mesma idade gestacional o colocaria acima de cerca de 20% dos fetos e abaixo dos cerca de 80% restantes.

Portanto, este é apenas um valor estatístico para interpretar e ponderar, não algo com interpretação patológica direta.

Como interpretar o percentil de crescimento/peso fetal

Em muitos casos usa-se o percentil 10 para classificar fetos e bebés como leve para a idade gestacional. Pela descrição acima percebemos que isto significa que se decidiu, arbitrariamente, classificar 10% dos bebés como leves. São, de facto, os 10% mais leves. É também um grupo onde a probabilidade de patologia relacionada com o crescimento aumenta, pelo que faz sentido preocupar-mo-nos mais com esse grupo. No entanto, é importante sublinhar que a maioria (mais de 70%) dos bebés nesse grupo não têm nenhum tipo de problema. São, simplesmente… mais leves do que a maioria. Não podemos achar que 1 em cada 10 bebés tenha problemas!

Dentro das dificuldades já abordadas em definir qual o crescimento ideal para um determinado bebé, um valor arbitrário deste tipo (percentil 10, 5 ou 3) identifica um subconjunto de fetos que pode ser vantajoso avaliar com mais cuidado outros parâmetros ecográficos e/ou situação clínica da gravidez com maior pormenor, porque a probabilidade de doença é, apesar de tudo, maior.

O contexto clínico é de suma importância. Se, em avaliações ao longo do tempo, o percentil desce significativamente (“cruzar” percentis) é também necessária maior atenção, independentemente do percentil em que se encontre no momento. Por outro lado, uma gravidez de evolução normal numa mulher saudável com peso fetal mantido no percentil 5, sem outras alterações, poderá não suscitar cuidados diferentes.

Ainda que, habitualmente, causem maior angústia os pequeninos, o percentil muito grande também está a associado, em alguns casos, a patologia, pelo que os bebés macrossómicos (pesados para a idade gestacional, habitualmente classificados acima do percentil 90) devem suscitar igualmente dúvidas a esclarecer. Culturalmente gostamos de bebés gordinhos, mas isto é também um problema.

A vantagem das curvas nacionais

Agora percebemos que com os percentis pretendemos identificar uma posição específica no universo de indivíduos com as mesmas características e depois interpretá-la, cuidadosamente, no contexto clínico.

A vantagem das curvas nacionais é que o valor que escolhemos é realmente o que encontraremos. Isto é, dado que foram construídas com dados de bebés portugueses, se escolhermos o percentil 5 iremos encontrar sensivelmente 5% dos bebés de um hospital, por exemplo. Outras curvas apresentam valores por vezes muito diferentes, pelo que, em vez de 5% poderemos estar a identificar 2% dos bebés, ou 10%. No primeiro caso, não estaremos a atuar (se for esse o caso) nos 3% de bebés que não foram identificados; no segundo caso, poderemos estar a atuar em situações em que não pretendíamos fazer.

Se queremos o percentil x, temos de ter x%. As curvas nacionais é isso que providenciam.

Para saber mais

Pode consultar o website do artigo: fetalgrowth.med.up.pt 

Aqui pode fazer o download das curvas em .pdf: curvas para a população Portuguesa (não esquecer que a interpretação deve ser feita por médicos)

 

 

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O médico que só sabe Medicina nem Medicina sabe

Esta é a máxima do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS). Não poderia rever-me mais nesta ideia em que, ao reduzir a nossa esfera de atuação, perdemos tanto do que nos ajuda a ser melhores.

A motivação

Gosto de construir coisas, produzir, fazer. Acho que os computadores são ferramentas fabulosas quando bem usadas, mas gosto ainda mais de os configurar, montar, reparar. Construir um muro, reparar um televisor, desmontar uma moto ou fazer a revisão do automóvel, escolher uma solução adequada e implementá-la. Metade do prazer está em aprender a fazer. É esta curiosidade que motiva os resultados. Os porquês que tanto se têm em criança e que, infelizmente, se vão perdendo enquanto “crescemos”, ou somos formatados, reduzidos na nossa imaginação.

É também isto que me fascina na medicina. É por isso que sou um profissional realizado. Ajudo pessoas todos os dias, tenho um trabalho entusiasmante porque é difícil, variado, apresenta desafios a toda a hora e, felizmente, grande parte são ultrapassáveis com a suficiente determinação. Tenho a melhor profissão do mundo, simplesmente porque é a que quero e na qual me sinto realizado. Realizado porque posso inclusive usar tudo o que aprendi fora da faculdade para o melhor cuidado dos meus doentes.

Nada com que se aprenda é tempo desperdiçado.

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