HyFoSy — avaliação ecográfica da permeabilidade tubária

No estudo de um casal com dificuldade em engravidar, uma das perguntas obrigatórias é: as trompas estão permeáveis? A trompa é o canal por onde o óvulo é apanhado pelo ovário e por onde os espermatozóides têm de passar para que aconteça a fecundação. Se as trompas estiverem obstruídas — total ou parcialmente — a gravidez espontânea pode ser difícil ou impossível.

Estima-se que 30 a 40% das mulheres com infertilidade tenham algum tipo de patologia tubária. É um número alto e, por isso, avaliar a permeabilidade das trompas faz parte do estudo básico de qualquer casal infértil, segundo as principais sociedades europeias (ESHRE) e britânicas (NICE).

Os exames disponíveis — e porque a HyFoSy se destaca

Há essencialmente três caminhos para avaliar as trompas, e um quarto reservado para situações específicas:

A HyFoSy (sigla inglesa de Hysterosalpingo-Foam Sonography) usa uma espuma estável e visível na ecografia para se ver, em tempo real, se a espuma atravessa o útero, percorre as trompas e sai pela extremidade junto ao ovário. Quando isso acontece, sabemos que a trompa está permeável.

Vantagens da HyFoSy face à HSG

Comparativamente ao exame radiológico tradicional, a HyFoSy oferece algumas vantagens objetivas que vale a pena destacar:

Os números sobre dor são particularmente relevantes para quem vai ser submetida ao exame: em séries grandes, cerca de 6 em cada 10 mulheres relatam dor ligeira (≤3/10), 4 em cada 10 dor moderada e apenas cerca de 2% referem dor intensa. É um exame tipicamente curto e reproduzível.

Em resumo: a HyFoSy combina o que se queria de um exame de primeira linha — sem radiação, sem iodo, ambulatório, geralmente bem tolerado, e com a vantagem de avaliar simultaneamente a cavidade uterina e as trompas.

Como decorre o exame

O exame é semelhante a uma ecografia ginecológica habitual, com alguns passos adicionais. Tipicamente:

  1. Marcação na primeira metade do ciclo (por exemplo entre os dias 5 e 12), depois da menstruação ter terminado e antes da ovulação.
  2. Ecografia ginecológica inicial completa — para avaliar útero e ovários, excluir gravidez (confirmar estadio do ciclo) e planear o exame.
  3. Colocação de um espéculo vaginal e desinfecção do colo do útero.
  4. Passagem de um pequeno cateter pelo canal do colo. Um pequeno balão é insuflado para selar e evitar fuga.
  5. Retira-se o espéculo e introduz-se uma sonda ecográfica vaginal.
  6. Injeção lenta de soro fisiológico para avaliar a cavidade uterina.
  7. Injeção lenta da espuma — ao mesmo tempo que se observa por ecografia a sua passagem pelo útero, pelos cornos uterinos, pelas trompas e a sua chegada à região do ovário.

Não é um exame demorado. Não exige jejum nem repouso posterior — pode regressar à atividade normal imediatamente. Um ligeiro desconforto pode estar presente por algumas horas.

Esquema interativo — passo a passo

Para visualizar melhor a sequência da técnica, preparei o esquema interativo abaixo. Carregue nos passos da barra lateral para ver cada momento — desde a ecografia inicial até à avaliação da espuma a sair junto ao ovário. Pode pausar, avançar ou voltar atrás.

Esquema interativo da técnica HyFoSy Abrir em ecrã inteiro ↗

A minha variação: cateter urinário pediátrico

Existem cateteres específicos para HyFoSy comercializados pelo fabricante da espuma. Funcionam, mas a estabilidade nos diferentes tipos de colo uterino e capacidade de evitar fugas não é ideal, ou então (os dedicados) são demasiado caros. Na minha prática usei e adaptei uma alternativa simples: um cateter urinário pediátrico (Foley) de 6 a 8 French, com balão insuflado no canal do colo (não dentro do útero).

Esta variação técnica — divulgada na minha apresentação nas XL Jornadas SPMR 2026 — tem várias vantagens práticas:

Nota pessoal Resolvi com este pequeno cateter pediátrico cerca de 95% dos problemas de fuga de espuma que encontrava antes — uma solução barata, universalmente disponível e bem tolerada.

Preparação prévia

Não é preciso preparação especial. Em concreto:

Quando é que a HyFoSy não está indicada

Há situações em que o exame não deve ser realizado, ou em que é preferível optar por outro método:

O que se faz com o resultado

O resultado da HyFoSy ajuda a orientar o plano terapêutico. Se as trompas estão permeáveis e o restante estudo do casal é tranquilizador, pode-se ponderar tentativa espontânea ou inseminação intrauterina. Se há obstrução tubária, a fertilização in vitro torna-se o caminho mais curto. Em caso de hidrossalpinge, é frequente recomendar-se uma cirurgia (salpingectomia) antes da FIV para melhorar a taxa de gravidez — esta é uma recomendação com evidência sólida na literatura.

É importante uma nota sobre interpretação: a HyFoSy é muito boa a confirmar que uma trompa está aberta — um resultado positivo é muito tranquilizador. Quando o exame sugere obstrução, vale a pena ter alguma cautela: o espasmo da trompa, a posição do balão ou a qualidade da imagem podem simular obstrução. Nestes casos pode justificar-se um exame complementar (HSG ou laparoscopia) antes de qualquer decisão definitiva. Uma trompa permeável não é, no entanto, garantia de uma trompa funcional.

E o efeito terapêutico?

Há muito que se sugere que a passagem de um líquido pelas trompas pode ter um efeito de "lavagem" benéfico para a fertilidade. Essa hipótese está bem demonstrada para a HSG com contraste oleoso (estudo H2Oil, NEJM 2017), mas para a HyFoSy com espuma ainda não temos um ensaio clínico aleatorizado conclusivo. Coortes observacionais sugerem taxas de gravidez espontânea de ~30–34% nos 6 a 12 meses seguintes, mas este efeito ainda está por confirmar formalmente. Está em curso um ensaio clínico (FOil) para esclarecer a questão.

Em síntese

A HyFoSy é hoje a opção que recomendo como primeira linha para avaliar as trompas no estudo de infertilidade: rápida, em consultório, sem radiação nem iodo, geralmente bem tolerada e com excelente acuidade. A variação técnica que adoto — cateter urinário pediátrico no canal do colo — torna o exame ainda mais reprodutível e barato, sem perder qualidade de imagem.

Como qualquer exame, há limites e situações em que outros métodos são preferíveis. A decisão sobre que exame fazer e quando deve ser sempre tomada em consulta, com o seu médico, em função da sua história e dos restantes resultados do estudo de fertilidade.

Para saber mais

Algumas referências utilizadas neste artigo: